VISOR: Suicídio em Jeremoabo

Postado por Adalberto Moreno em 4 de março de 2013

CASO 1: Jeremoabo foi tomada por um sentimento de choque e incredulidade, pela morte de uma criança, de 11 anos, de iniciais M.M.M, por enforcamento, com todos os indícios apontando suicídio, ocorrida em 02 de março 2013. Era, pelo que todos dizem, uma criança alegre aparentemente, participava de todas as brincadeiras com colegas, possuía uma hiperatividade incrível e não demonstrava quaisquer atitudes que levassem a imaginar que fosse capaz do pior. Sofria, entretanto, com questões familiares ligadas à separação dos pais.

CASO 2: No dia 08 de novembro de 2011, a jovem Uiaria de Jesus Carvalho, de 23 anos, foi encontrada morta dentro de casa, na Rua Santa Cruz, no centro de Jeremoabo, também com uma corda no pescoço. Bela , alegre, funcionária da loja GBarbosa, não demonstrava atitudes que levasse a imaginar que seria capaz do pior. As causas não foram apuradas até hoje. CASO 3: No dia 31 de março de 2012, o jogador Alexsandro Jesus Matos, conhecido como “Alex”, 36 anos, residente na Rua Santa Cruz, no centro da cidade de Jeremoabo, faleceu vítima de enforcamento. Atleta que defendeu grandes clubes de nossa cidade, também não demonstrara atitudes que levasse a imaginar que seria capaz do pior. Morreu por amor.

CASO 4: No dia 23 de fevereiro de 2013, um senhor de 43 anos, Manoel, atira-se em frente a um ônibus e morre por atropelamento. Segundo dizem, não suportou a separação da esposa e família. Apesar de beber muito não demonstrava atitudes que levasse a imaginar que seria capaz do pior.

Todas as ocorrências acima pontuadas aconteceram aqui em Jeremoabo e deixou nossa sociedade perplexa, e apresentam como ponto comum, a ausência de indícios que levassem ao cometimento de tal ato. As alegrias, muitas vezes, são apenas aparências e ninguém sabe o que vai pela alma de cada um. Estes dias, um colaborador da Secretaria de Educação, quando lá estive, disse uma frase emblemática: “- Sinto-me só no meio de uma multidão e, pior, ninguém percebe isso.” O que acontece com nossos sentimentos de companheirismo, de fraternidade, de amor? Por que não enxergamos o outro que sofre e que muitas vezes está ali ao nosso lado? Quais nossos valores hoje? Estes dias uma jovem solicitou permissão para ser minha amiga no facebook e, após minha aceitação, mandou-me uma mensagem que me deixou muito inquieto. Dizia ela, após agradecer pela confiança do meu aceite: “- Pedro Son gostaria de partilhar com vc que sinto falta de conversar com pessoas instruídas assim no meu mundo juvenil.”. Depois de conversarmos mais percebi que a “pessoa instruída”, como ela tratava, era alguém que fosse capaz de compreender as angústias de uma juventude que ainda resiste na manutenção de valores éticos e cristãos que desaparecem aos poucos: o amor, a paz, a compreensão, a humildade, a amizade, etc. Nossos jovens clamam ajuda, assim como as nossas crianças e adolescentes. Nenhuma das mortes causou maior impacto do que o suicídio do pré-adolescente M.M.M., não existindo registro formal ou alguém que recorde de fato semelhante em nossa cidade nesta faixa de idade. No Brasil e no Mundo, tem crescido consideravelmente o número de suicidas infantis. O suicídio é hoje a terceira causa de morte na adolescência, e nos últimos 10 anos, têm aumentado, no Brasil, em jovens entre 15 a 24 anos, mais de 20 vezes de 1980  para 2000, principalmente entre homens (Wang, Bertolote, 2005). Entre as causas, apontadas por Saudoina Fernandes de Abreu, estão: o rompimento ou ameaça de término de um romance, uma gravidez (real ou imaginária), fracasso escolar, conflitos com os pais, separação dos pais, rejeição por parte de um amigo, ser apreendido num ato delinquente, perda de uma pessoa querida ou de um dos pais ,medo de doença grave ou colapso mental iminente, problemas financeiros, drogas, fatores genéticos (ou seja, se um dos pais já teve depressão, é provável que algum dos filhos venha a ter depressão também), etc.

Até os 6 a 7 anos a criança encontra-se na fase do pensamento pré-lógico, com predomínio do pensamento mágico e, nesta fase, a idéia de morte é limitada e não envolve uma emoção em especial. Aos 11 a 12 anos, há passagem do pensamento concreto para o pensamento abstrato (PIAGET , 2000) e, nesta etapa, surge a preocupação com a vida após a morte (Toress, 1999). O jovem entra no mundo através de profundas alterações no seu corpo, deixando para trás a infância e é lançado num mundo desconhecido de novas relações com os pais, com o grupo de iguais e com o mundo. Assim, invadido por forte angústia, confusão e sentimento de que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente seu futuro. Isso ocorre, principalmente, se o jovem estiver num grupo familiar também em crise, por separação dos pais, violência doméstica, alcoolismo ou doença mental de um dos pais, doença física ou morte (Resmini, 1997). Eis o quadro do qual nosso pré-adolescente foi vítima!

CONCLUSÃO

Ainda há tempo de agirmos para transformar, primeiro, pensando em nós mesmos, numa auto-reflexão sobre o papel que estamos exercendo neste momento crucial de crise. Será que estamos representando bem nosso papel? E a partir dessas reflexões juntarmos as forças restantes para buscar salvar nossas crianças e nossos jovens, antes que seja demasiadamente tarde. Antes, as coisas aconteciam longe demais de nós. Era cômodo. Sofríamos ao longe. Agora as coisas começam acontecer nos quintais de nossas casas. Recentemente, foi lançado em nossa comunidade o “Projeto Criança Brincando e se Transformando”, passo importante, mas precisamos de muito mais. É um primeiro caminho para unirmos dons, talentos, motivação, doação e vontade de fazer acontecer. Ou a vaca vai para o brejo

BIBLIOGRAFIA

  1. CANDIANI, Márcio. Suicídio na Adolescência. Disponível em http://marciocandiani.site.med.br/index.asp?PageName=Suic-EDdio. Acesso em 03.03.2013, 19:20 hs

2.     ABREU, Saudoina Fernandes. Suicídio infantil. Disponível em http://www.webartigos.com/artigos/suicidio-infantil-o-que-leva-uma-crianca-e-adolescente-a-cometerem-suicidio/50656/. Acesso em 03.03.2013, 19:30 hs

 


[1] Pedro Pereira da Silva Filho, Administrador de Empresas, MBA USP/FIA. Pós-graduado Administração de Cidades. Especialista em Docência e Metodologia. Ex- Secretário municipal Educação Jeremoabo (BA). Publicado em 03.03.2013

Um Comentário

  1. Landis Filho disse:

    Muito bom seu texto Pedro!

    Há alguns dias estava pensando justamente sobre isso. É notório o desespero de muitas pessoas em alcançar a felicidade a qualquer custo, o sucesso, a se livrar das angústias, a ter satisfação pessoas e profissional, a amar e ser amado. Quando isso não acontece vem o desespero e muitas vezes as atitudes drásticas, como o suicídio.
    Tenho percebido algo muito interessante e preocupante: a falsa felicidade do mundo virtual. Quantas vezes não acessamos as redes sociais e vemos pessoas “tão felizes”, “tão realizadas”, “tão cheias de fé”, mas que na verdade estas mesmas pessoas encontram-se cheias de angústia e solidão? São inúmeras. Muitas pessoas se escondem atrás de “esteriótipos ideias” em busca de uma felicidade momentânea, um prazer momentâneo. Essas pessoas são vítimas de um processo histórico globalizado, onde se valoriza mais as aparências e as coisas materiais.
    Falta a espiritualidade. Pode-se dizer que evoluímos na regressão. Gosto de uma frase do psiquiatra austríaco Viktor Frankl: “O homem, por força de sua dimensão espiritual, pode encontrar sentido em cada situação da vida e dar-lhe uma resposta adequada”. Isso me faz pensar que a vida pode ser mais simples do que pensamos. Que temos o poder de sermos quem precisamos ser e não muitas vezes sermos o que queremos ser, pois até o nosso querer é tem influências externas, como a maioria das mídias que fazem de tudo para nos venderem valores e coisas que muitas vezes nem precisamos, e a falta disso nos fazem infelizes sem percebermos.
    Temos que valorizar a nós mesmos em primeiro lugar. Saber que nossa primeira vitória foi no ventre da nossa mãe, quando, dentre milhões, nós fomos os vencedores na nossa primeira luta.

    AGRADECIMENTO À VIDA
    Querida vida…
    Obrigado pela adversidade, pois descobri a coragem;
    Obrigado pelos medos, pois descobri que enfrentá-los me capacita;
    Obrigado pelas desilusões, pois descobri que nem tudo acontece como quero e ainda assim me supero;
    Obrigado pelas derrotas, pois descobri que me ajudaram a vencer;
    Obrigado pelas paixões, pois descobri a luz e as trevas e que ambas me trazem valor;
    Obrigado pelos sorrisos dos outros, pois descobri que são um bálsamo;
    Obrigado pelas tristezas, pois descobri que se referem a coisas boas que vivi;
    Obrigado pelas experiências em geral, pois descobri que são minhas e interpreto-as como eu quero.Obrigado vida, tu fazes-me viver
    – Miguel Lucas


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