VISOR: A tradição do Grupo de Zabumba Liberato de Jeremoabo

Postado por Adalberto Moreno em 18 de junho de 2013

Há muitos e muitos anos celebramos o novenário do padroeiro São João Batista. Religiosa e sagradamente, ano após ano, de 15 de junho a 24 de junho. É o tempo também em que aparecem os grupos de zabumba ou banda de pífanos. Em Jeremoabo, o Grupo de Zabumba de seo Liberato há mais de quarenta anos apresenta seu louvor ao santo, na porta principal da Igreja Matriz, sempre das 8 às 12 h e das 14 às 18 h, apresentando um repertório variado de belas músicas com tom nordestino.  Uma das mais pedidas é o ”Caboré”, tocada desde o início que junto com a “A Ema gemeu” e “Asa Branca” são puxadores da animação e da seleção musical. Seo Liberato é um homem simples, sem muito estudo, não tem teoria musical e toca de ouvido sua gaita, vem liderando o grupo há muito tempo que conta ainda com seu filho Renato, também tocador de gaita, José Nascimento, tocador de caixa e Adailton, tocador da zabumba. O prazer de tocar supera muita coisa, até o pouco ganho com o ofício. Vai se abrindo e contando sua história: “toco há quarenta anos e fui aprendendo a tocar observando outros tocando, principalmente meu avô e meu pai”, vai falando com voz baixa e desconfiada, como muitos dos sertanejos. Seu filho, Renato, é a quarta geração da família que toda a gaita. Motivo-o também a contar sua história: “é uma tradição que já vem dos meu bisavô, e aí meu avô tocava, meu pai, meus tios. Um dia meu avô me levou para um festejo e já pelas seis horas da manhã, eu estava sentado num banquinho de madeira, prestando atenção em tudo, aí meu avô me pegou e sentou-me em uma de suas pernas, pegou a vara da zabumba colocou na minha mão e foi me ensinando. Daí eu comecei a andar com eles e prestando atenção e aí aprendi”. E por aí foi tagarelando. Mas quando perguntei se dava para sobreviver só com o pífano, ele mudou a fisionomia e complementou “infelizmente para manter a família temos que se virar em outros serviços. Isso aqui não dá nada não, seo Pedro”.  Seo Liberato, talvez compreendendo o sentimento e importância do momento, intervém prontamente: “não dá, não dá prá viver disso mas é a diversão da gente, né?”. Seo Liberato é o continuador do grupo que toca nas novenas de São João há bastante tempo e que teve início com seo Luiz e prosseguiu com seu filho João Luiz, moradores da Lagoa Grande, numa tradição que vem atravessando os tempos e que já tem o futuro nas mãos de Renato, já que o atual coordenador já tem uma idade bem avançada.

O que é o Grupo de Zabumba

O Grupo de Zabumba ou Banda de Pífanos é um conjunto instrumental dos mais antigos, característicos e importantes da música folclórica brasileira. Historicamente o pífano remonta à época dos primeiros cristãos, que tinham no pífano, pifes ou pífora, uma maneira de saudar a Virgem Maria nas festas natalinas. Na feição nordestina a banda de pífanos é uma criação do mestiço brasileiro, que com sua criatividade e intuição musical adaptou o instrumental, dando-lhe a forma típica pela qual é conhecida no folclore brasileiro. A sua composição também tem sensíveis diferenças, mas seus instrumentos básicos são dois pífanos, uma caixa e uma zabumba. O pífano é o comandante da banda. É um instrumento semelhante à flauta, feito de taquara, uma madeira muito comum nas matas do sul de Pernambuco, mas já se usa muito a gaita, de construção diferente mas que faz o mesmo efeito. Como o grupo de seo Liberato usa gaitas, preferi chamar de Grupo de Zabumba e não Banda de Pífanos.

CONCLUSÃO

O município tem outras bandas de pífanos ou grupos de zabumba, todos carecendo de atenção para manutenção de tradição cultural histórica e que, antes, eram os principais animadores de culto aos santos em suas festas. Resistem com a força desses homens simples, na maioria sem formação, sem estudo musical, mas que denotam um amor imenso pela arte e calam, pensativos, quando se especula o futuro da tradição. Fiquei um tempo imenso observando-os tocar, conversando, pela manhã, pela tarde e quase ninguém apareceu lá para prestigiar, para motivar ou até mesmo para conhecer. Um aqui, outro ali e nada. Se depender deles teremos cultura mantida e longa. Se depender da sociedade …

BIBLIOGRAFIA

1.      GASPAR, Lúcia. Bandas de Pífano. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: 15.06.2013, 13:23 h.

 


[1] Pedro Pereira da Silva Filho, Administrador de Empresas, MBA USP/FIA. Pós-graduado Administração de Cidades. Especialista em Docência e Metodologia. Ex- Secretário municipal Educação Jeremoabo (BA). Publicado em 15.06.2013.


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