‘A Viagem de Pedro’ desconstrói mito de Dom Pedro – Jornal Correio

A Viagem de Pedro, primeiro drama histórico da diretora Laís Bodanzky, chega hoje aos cinemas, na semana que antecede o aniversário de 200 anos da da Independência do Brasil, no dia 7 de setembro. Mas, segundo a cineasta paulista de 52 anos, não havia inicialmente a intenção de atrelar o lançamento do filme à celebração da data histórica. 

Segundo Laís, embora o longa-metragem seja sobre Dom Pedro I, a produção não reverencia a imagem do monarca: “Ao contrário de reverenciar, o filme foi feito para questionar as estátuas e aqueles que narram a história. E para questionar como a história é registrada”, defende a diretora de filmes como Bicho de Sete Cabeças.

No papel de Dom Pedro, está Cauã Reymond, que é um dos produtores do longa e convidou Laís para dirigir. O fime retrata a viagem que o imperador realizou em 1831 do Brasil para a Europa, onde pretendia enfrentar o irmão Miguel numa guerra pela disputa do trono português.

Na viagem, a bordo de uma fragata inglesa, estão membros da corte, oficiais, serviçais,  negros livres e escravizados. O resultado é uma babel de línguas, culturas e posições sociais. O que se vê durante aquele trajeto é um Dom Pedro atormentado por lembranças do passado, que se sente culpado pela morte da esposa Leopoldina e por tratá-la de maneira agressiva. Além disso, ele tinha um romance extraconjugal com Maria Domitila, o que também o faz carregar certa culpa.

Mas os problemas não estão só no passado: durante a viagem, o monarca se vê às voltas com um problema de impotência sexual, em razão da sífilis. A um certo momento desabafa com seu médico e manifesta uma preocupação machista: será que vai conseguir ganhar a guerra, mesmo impotente sexualmente?

O baiano Sergio Laurentino está no filme

Este retrato de Dom Pedro foi intencional, segundo Laís, que é também roteirista. “Quando aceitei o desafio [de dirigir e escrever], veio junto o convite para que eu emprestasse meu olhar de mulher. Eu tinha feito Como Nossos Pais, que tem um discurso feminista muito claro”, diz a cineasta. Ela acrescenta quehoje Dom Pedro seria classificado como um homem tóxico.

Licenças

O único registro oficial daquela viagem são os diários de Dom Pedro, ao qual Laís não teve acesso. Diante da escassez de documentos, ela diz ter ficado à vontade para imaginar o que ocorrera a bordo da fragata. Numa dessas licenças poéticas, Dom Pedro recorre a um ritual do candomblé, orientado pelo Chef, interpretado pelo baiano Sergio Laurentino. “Ele saiu frágil do Brasil. Por todas as características dele, acho que ele faria aquilo. Além disso, achei importante porque o Brasil de hoje não respeita o país nosso, que é laico. Trata-se, portanto, de uma cena política”.

No filme, o feminismo se apresenta na figura de Dira, uma serviçal interpretada por Isabél Zuaa. “Dira fala da liberdade, do prazer, do gozo da mulher… e de como isso é considerado sagrado em culturas africanas”, observa a atriz. “No filme, a personagem de Isabel é super empoderada e conduz Dom Pedro de novo ao prazer quando ela dá a ele uma aula de como agradar uma mulher e diz a ele que não precisa ser da forma mais óbvia”, diz Cauã.

Cauã e Laís agora festejam uma conquista do filme: nesta semana, A Viagem de Pedro ficou entre os seis longas pré-selecionados para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional. O representante do país será definido na próxima segunda-feira, dia 5.

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